No Brasil

Post 138

Post curtinho, só pra "dar satisfação": já estamos em solo brasileiro, nos recuperando das 30 horas de viagem + o jetlag que derruba qualquer um (ainda mais com uma diferença de 12 horas). A pobrezinha da Beatriz que o diga: querendo dormir de manhã (achando que é de noite) e os avós - que a estão vendo pela primeira vez - querendo fazer festa (com todo direito). Mas ela já está começando a entrar nos eixos. Quando pega no sono, é pra valer: do jeito que deitou, fica imóvel até acordar, aí, com as baterias recarregadas e pronta pra brincar com todo mundo.

O problema é quando o fuso horário derruba a gente, e ela está acordadaça: aí, se vira!

Felizmente, durante a longa viagem ela ficou muito bem, não estranhou o avião, fez a alegria das comissárias e de alguns passageiros, sem problema algum. Tomara que a volta seja tão boa quanto a ida. A gente fica meio estragado, claro, mas vale a pena.

E hoje é "mêsversário" da Beatriz, 5 meses! Parabéns, filhota!

Final de semana que vem, blogagem semi-normal, ok?

Obs.: a propósito, parece piada, mas, novamente, as nossas malas não chegaram conosco, e só as recebemos no dia seguinte, no domingo. Mas, dessa vez, seguindo o famoso dito "cachorro mordido por cobra tem medo de linguiça", colocamos cadeados em todas as malas. E elas chegaram intactas, inclusive com os presentes dos afilhados e tudo mais.

Annyonh...ou melhor, até breve!

Renato & Selma



Escrito por Renato Maschetto às 23h35
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Na mão, não !

Post 137

Dependendo do referencial, os coreanos são, em geral, higiênicos. Por exemplo, comparados com os chineses, os coreanos estão anos-luz à frente, e acham os chineses muito porcos. Comparados com os brasileiros, os coreanos ainda deixam um tanto a desejar.

Quando você sai do Brasil (seja para viajar ou morar fora) é que você percebe o quão asseados somos nós, tupiniquins, subdesenvolvidos latinoamericanos do "3o. Mundo". Genericamente falando, estadunidenses não escovam os dentes após o almoço; alemães e franceses não são tão chegados a um banhozinho diário...os coreanos, ao contrário, escovam os dentes por muuuito tempo e, quando podem, tomam longos banhos (mais pela questão do "evento" banho: para relaxar, esfregar as costas do amigo, curtir um tempo longe da mulher).

Porém, a esmagadora maioria não lava as mãos depois que faz xixi ou "number two". Sai direto da casinha pra fora do banheiro. O que já nos levou a pensar se o motivo pelo qual os coreanos se cumprimentam apenas abaixando o corpo seja o fato de saberem que, provavelmente, o outro não lavou as mãos...

Brincadeira!!! O lance do cumprimento, entenda-se bem. Em relação a lavar as mãos, eles (e elas) não lavam mesmo. Poucos o fazem.

Apesar que, ultimamente, em função de gripe suína (ninguém fala mais nada na TV, nos jornais...já foi a fase sensacionalista?) e outros surtos, há muitas campanhas para educarem a população a lavarem as mãos adequadamente.

Foto: daylife.com

O motivo de todo esse preâmbulo é pra questionar o seguinte: por quê que tem que pegar na mão de nenê pra brincar? Sabendo-se que todo nenê fica enfiando a mão na boca o tempo todo, não é fácil concluir que pegar na mão de criança é pedir pra ela engolir mais germes do que o mínimo necessário. Será que é difícil entender isso?

A resposta é simples: para eles, não tem problema pegar na mão de criança. Ora, o que tem de mais? O fato de não lavar a mão depois de ir ao banheiro não é visto como um problema, é algo natural. Assim como para nós é automático lavar as mãos, para os coreanos é automático sair do banheiro sem lavá-las. Um simples caso de "diferença cultural"...

Mas nos incomoda. Se eu mesmo fico meio ressabiado cada vez que cumprimento um tiozinho coreano (um adjoshi), imaginem quando vejo eles (ou uma ajumma) pegando na mão da Beatriz. Acho legal a festa que eles fazem na rua, brincando, fazendo micagem para ela (os tiozinhos e o pessoal novo também) mas, por favor, não pega na mão! Pega na perna, no cotovelo, na orelha, mas, por favor, na mão, não!!

O pior foi na semana retrasada. Estávamos andando pela cidade, no bairro de Itaewon, que é o bairro com uma grande concentração de estrangeiros. Estávamos indo à livraria que, pitorescamente, fica numa rua conhecida como "Hookers Hill" (traduções desnecessárias, vocês sabem o que isso significa).

Parênteses em relação ao "Hookers Hill": apesar de proibida na Coreia, a prostituição é visível e abundante. Estatísticas do Instituto para o Desenvolvimento da Mulher da Coreia indicam que o mercado da prostituição gerou, somente em 2007, cerca de US$ 13 Bilhões, algo em torno de 1.6% do PIB coreano. Segundo a Associação Feminista da Coreia, cerca de 1 em cada 10 mulheres coreanas acima dos 20 anos faz parte da indústria da prostituição. As autoridades fazem vista grossa, e um dos passatempos favoritos dos coreanos após o trabalho é visitar os diversos estabelecimentos que oferecem serviços do gênero, tais como karaokês, casas de massagem, bares de "entretenimento", "room salons", "barbearias" (que não são barbearias, vejam um post que escrevi há um tempo atrás AQUI), bordéis estilo "casa da luz vermelha" (tem um ao lado da 2a. maior estação de Seul, a Yongsan Station, onde as meninas ficam nas vitrines, à espera dos clientes), etc. . Nada disso é escondido: é tudo muito bem sinalizado, identificado e promovido.

 

Em breve coloco algumas fotos das "barbearias" e dos bares do Hookers Hill que oferecem serviços "diferenciados". Fotos externas, claro...

Enfim, subíamos o Hookers Hill, que é a rua onde se encontra essa livraria que sempre frequentamos (além do mercadinho indiano onde garantimos nosso feijão, leite de côco tailândes, e outras especiarias que não se encontram em mercados coreanos) e, quando chegávamos à porta da loja, uma das prostitutas acabava de sair do bar para abordar um gringo que passava pelo mesmo local (detalhe: era uma senhora com seus mais de 50 anos, e bem judiadinha, coitada...ah, eram umas 16h, domingão à tarde...). A Beatriz estava comigo, no carregador e, após a ignorada do gringão, a pobre da tiazoca se vira pra gente e vem desesperada na direção da Beatriz: "Oh, que lindinha, cuti-cuti, nhe-nhe-nhe, gracinha, oohhhh, que linda"...e, claro, pegando na mão, apertando a bochecha, fazendo a festa.

Eu poderia ter sido indelicado e puxado a Beatriz pra trás. Mas, pra quê? A pobre mulher estava extremamente feliz em ver a Beatriz, e agir de forma rude não seria uma boa idéia. Ficamos ali um pouquinho e, obviamente, fiquei monitorando a mão da Beatriz para o caso de ela tentar levá-la à boca.

Depois da rápida interação, ela voltou para seu bordelzinho (um bar) e, quando me virei pra Selma, ela já estava com os lencinhos umedecidos na mão, prontos pro serviço expresso. Pá-pum: limpamos a mão dela, fizemos uma tiazoca feliz, e fomos pra livraria. E a vida continua...

Acima: livraria What the book? 

E já que falamos em "diferenças culturais", o que vocês vêem de diferente na foto abaixo?

 

Quem falou a placa verde sem número, errou. Agora, se vocês repararam no espelho acima do vidro traseiro, acertaram:

Que os coreanos são MUITO ruins no trânsito, vocês já sabem: eu não me canso de repetir isso. E uma das primeiras coisas que reparamos quando chegamos aqui foi esse monte de espelhos na traseira das pickups e SUVs. Pra quê isso?

Ora, o espelho acima reflete o pára-choques traseiro diretamente no espelho retrovisor interno. Quando o pessoal está fazendo baliza, não consegue calcular a distância e, muito menos, usar os espelhos normais corretamente. Então, um espelho a mais faz toda diferença e ajuda o pessoal a estacionar (além, é claro, do sinal sonoro do sensor de proximidade instalado na traseira da maioria dos veículos, e dos adjoshis que ficam na rua falando "mais pra frente, mais pra trás, volta, vai, aôôôô!!!"). Sem isso, haja pára-choques!

Final de semana que vem estamos de partida para o Brasil: hora dos avós conhecerem a neta (e amigos, e parentes, etc.). Que dessa vez não tenhamos problemas com a bagagem  como no ano passado, quando aquela gangue estava agindo na França

Pizza marguerita, pão-com-manteiga na chapa, lanche de mortadela no Mercado Municipal, pão-de-queijo, churrasco, quindim, café de verdade...

Anyonheghaseyo!

Renato & Selma



Escrito por Renato Maschetto às 19h13
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Bukchon Hanok Village

Post 136

OBS1.: obrigado a todos que deixaram seus parabéns no último post. Foi muito legal receber seus comentários! (Ed Japamita, eu sempre peguei leve com você, não reclama!)

OBS2: a Selma continua com a vida de celebridade. Nessa semana, ela deu entrevista para a Radio Arirang (Arirang TV é a emissora que promove a Coreia e seus pontos positivos para a comunidade estrangeira), e vai ao ar na 3a. feira, dia 16, no programa "Evening Groove", das 20h às 22h, horário da Coreia. Vocês podem ouvir o programa aí no Brasil, via internet: www.arirangradio.com, cliquem em "Radio", depois em "Evening Groove". Na página, há um botão "On Air" e, ao lado, "DMB". É só clicar. E podem deixar mensagens lá também. Não esqueçam: no Brasil, será entre 8h e 10h da manhã, da 3a. feira, dia 16.

Semana passada tivemos mais um "marco" na vida da Beatriz: foi seu primeiro passeio de metrô em Seul!

Claro que foi Efeito Ambulância total, já que o pessoal no trem queria ver quem era a estrangeirinha dentro do carrinho. Mas ela nem se incomodou muito: riu pra todo mundo e ficou na paz:

Ah, e fez contatos imediatos do terceiro grau. Ou seria melhor dizer "intercâmbio cultural" ?

Descemos na estação de Anguk, em Jongno, a fim de visitarmos a "Bukchon Hanok Village". Uma vila, no meio da cidade, cujas casas foram preservadas (ou reconstruídas) no estilo tradicional coreano, ou "hanok".

Apesar de ser uma atração turística, a vila não é apenas uma espécie de museu a céu aberto. Na verdade, as pessoas moram nas casas, e levam suas vidas normalmente.

A vila de Bukchon localiza-se entre dois grandes palácios: o Gyeongbok e o Changdeok. Em função de sua localização estratégica, durante a era Joseon (1392-1910) abrigou grande parte da aristocracia coreana, e foi um grande centro das artes e cultura.

A maioria das casas foi remodelada no início do século passado (principalmente, banheiros e cozinhas), mas mantiveram sua estrutura original e as caracterísitcas tradicionais nas fachadas, a fim de preservarem a atmosfera mais do que interessante do local.

Há cerca de 900 casas na vila, numa área de aproximadamente 645 mil metros quadrados. E andar pelas ruelas e becos é uma experiência e tanto:

A propósito, nos arredores da vila há um museu "diferente". Trata-se do "Seoul Museum of Chicken Art" (ou "Museu da 'Arte Galinácea' de Seul). O que isso significa, eu não tenho a menor idéia:

Ora, e é claro que a Beatriz gostou do passeio: é só colocar ela nesse carregador que ela fica maluca!

Infelizmente, por uma série de fatores, tivemos que interromper nossas aulas de coreano. Uma pena pois, apesar de difícil, era uma forma de aprender mais sobre a Coreia e também uma maneira de se virar melhor por aqui. O mínimo que falamos já nos ajuda MUITO por aqui, principalmente por poder ler o Hangeul, o alfabeto coreano (bom, pelo menos, o malandro do estacionamento não te enrola, e na hora de pedir desconto, ajuda a negociar). Mas, pra poder entrar num diálogo pra valer, ou entender filmes, seria preciso mais empenho.

Abaixo, nossa professora, Miyoung Kang que, a partir de agora, ficou sem muitos alunos. Se você mora na Coreia e tem interesse em aulas particulares, entre em contato e poderemos checar se ela pode dar aulas.

Nesse final de semana foi realizada a "Parada Gay" da Coreia, parte do "10th Korea Queer Culture Festival". Porém, não é como no Brasil ou outros países onde o pessoal não está nem aí: aqui, jornalistas e fotógrafos não são autorizados a cobrirem o evento de forma aleatória. O comitê que organiza o tal festival tem que dar aprovação prévia e as pessoas que participam da parada têm o direito de escolherem não serem fotografadas. Para isso, o comitê distribui um adesivo que é colado na testa do participante. Dessa forma, ele(a) indica que não quer sua imagem divulgada.

Num país onde o povo ainda afirma que "na Coreia nao há gays" (sério, não é brincadeira), vejo o tal festival como um avanço, mesmo com as restrições acima. Afinal de contas, o preconceito é grande, e muita gente pode ter problemas no futuro (emprego, escola, etc.) caso seja visto no evento. E, sejamos honestos: é muita ignorância afirmar algo do tipo "na Coreia não há homossexuais". É só andar por Seul que a cada 200m você se depara com grupinhos ou mesmo indivíduos que resolveram, finalmente, tornar pública sua opção sexual.

Obs.: não estou falando dos "meninos femininos", que mais parecem meninas pela forma de se vestir e se comportar (eu acho que é influência dos grupinhos, como Super Junior, Big Bang, Shinee e outras tranqueiras mais...ok, ok, fãs de K-Pop, podem me apedrejar!!!). Esses são os andróginos que posam como delicados, sensíveis e atenciosos (você pode ver muitos desses nas novelas coreanas também), que muitas meninas adoram. Em nossa opinião, muitos são disfarces: depois que casam, tornam-se implacáveis e impiedosos adjoshis, que farão da vida de suas esposas um inferno! É meio como o Capitão Guapo e o Branquinho, da antiga Corrida Espacial: ao toque de um botão, eles se transformavam em Falsão e Trambique, e faziam de tudo para prejudicar os competidores da prova:

 

Protesto? Claro que teve mais nesse final de semana. Contra o presidente, contra o sistema, protesto pra comemorar aniversário de protesto...num deles, ao invés das vigílias com velas, alguns dos protesteiros se "fantasiaram como velas" e destruíram blocos de gelo representando o presidente. Pra isso, os coreanos são criativos! Se usassem essa criatividade toda no trabalho...

HT para Korea Beat

Até a próxima semana.

Annyonheghaseyo!

Renato & Selma



Escrito por Renato Maschetto às 18h19
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TAE KWON DO

Post 135

Há muito, muito tempo atrás, numa galáxia muito, muito distante...não, não tão distante assim...

Mas há 15 anos atrás (e com 15kg a menos) eu conquistava minha primeira faixa preta (e chutava alto):

E agora, 15 anos depois (desnecessário mencionar os quilos novamente), é com muito orgulho que anuncio a conquista da minha segunda Faixa Preta, dessa vez, de Tae Kwon Do:

Após muitos anos de treino de Taiyando, decidi que era hora de procurar outro estilo para continuar me desenvolvendo. Em 2001, comecei a praticar Tae Kwon Do no Brasil, pois sempre admirei o trabalho de pernas dos atletas e a desenvoltura da arte.

O Tae Kwon Do é uma arte marcial coreana, codificada como a conhecemos hoje em meados dos anos 50, cuja origem absoluta ainda gera controvérsia: muitos dizem que ela se originou totalmente na Coreia, derivada de outros estilos coreanos antigos de combate; outros argumentam que o Karate japonês influenciou tremendamente a arte. Independente da origem, hoje o Tae Kwon Do distingue-se nitidamente de outros estilos em função da utilização maciça de chutes e saltos, além da tremenda velocidade e agilidade.

No Brasil, pratiquei TKD por cerca de 3-4 anos, chegando até a faixa azul. Interrompi o treinamento em função do trabalho e, quando a oportunidade de vir para a Coreia surgiu, um dos meus objetivos era claro: continuar o treinamento e chegar à Faixa Preta.

Porém, não tinha idéia do que me esperava: longas jornadas de trabalho, conferências telefônicas até altas horas, gente te ligando do Ocidente às 23h, meia-noite...meu primeiro ano de Coreia foi extremamente complicado, e tive que abandonar qualquer idéia referente à atividade física.

Até que no final de 2007, quando fiz meus exames de rotina no Brasil, tomei um susto: meu nível de colesterol que sempre havia sido gabarito tinha ido às alturas. O médico - Dr. Ivan, gente boníssima, mas que não pega leve - comeu-me o toco e disse que se eu quisesse continuar em ritmo destrutivo, que ficasse à vontade. A escolha era minha.

Retornando à Coreia, decidi retomar o controle: voltei à rotina de exercícios moderada (no Brasil, eu e a Selma íamos à academia de 2a. a sábado, às 5:45h da manhã, antes do trabalho) e comecei a procurar um local para treinar TKD. E foi a frustração: ou não aceitavam estrangeiros, ou os horários eram incompatíveis. Achei que não ia ter jeito, e o desejo de treinar Tae Kwon Do no país que o criou não ia se tornar realidade.

Foi quando conheci o Mestre Kim (claro que ia ser um Mestre "Kim", "Lee" ou "Park") que, além de ensinar estrangeiros, tinha horários de treino perfeitos para mim: das 22:20h às 23:20h. Matriculei-me e voltei a treinar. Finalmente estava praticando, novamente, uma arte marcial.

A memória muscular foi voltando, o equilíbrio estava ainda no lugar, a técnica foi reaparecendo. O peso atrapalhou, mas não foi um empecilho. E, depois de treinar com vontade e chegar à faixa vermelha (a faixa que antecede a preta, no TKD), alguns meses depois Mestre Kim perguntou-me se eu não queria prestar o exame para a Faixa Preta. Eu perguntei se ele me achava apto e ele confirmou que era hora.

Então, na semana passada, lá fomos nós para Gangseo-Gu, um distrito de Seul onde seria realizado o exame de várias escolas: fomos eu, Selma, Beatriz, e a Bruna, nossa amiga cônsul.

Detalhe: geralmente, estrangeiros fazem o exame de faixa na Kukkiwon, o quartel-general do Tae Kwon Do WTF (o estilo popularmente conhecido como "olímpico"). Porém, nesse mês, não iriam realizar exames lá. Foi quando o Mestre Kim sugeriu o outro local.

Porém, não haviam outros estrangeiros: somente eu, no meio de dezenas de coreanos. Foi um Efeito Ambulância amplificado, pois eu não estava apenas "passando por lá" (como descrevi nesse post AQUI): eu estava lá para participar de algo BEM coreano. Ou seja, todos os olhos estavam voltados para o mancebo aqui, todos querendo ver "o que o estrangeiro vai fazer". Claro, isso só "ajuda" a te deixar mais calmo...

E o pior: ninguém falava absolutamente nada em inglês! Eu me sentia preparado para o teste, mas a preocupação em não entender o que o avaliador iria solicitar era grande, e fazia a adrenalina bombar. Tentei relaxar e crer que mesmo que não entendesse de primeira, era só ir com calma e tudo daria certo.

Até a hora em que você vai lá pra frente e fica cara-a-cara com a mesa avaliadora:

Pensei comigo mesmo que, se eu estava lá, era porquê meu professor havia me indicado. Então, eu não tinha com que me preocupar (muito). Eu estava preparado e teria que executar os movimentos da melhor forma possível e fazer uma luta limpa. E foi o que eu fiz.

Reparem na foto abaixo, durante a execução de uma das sequências (o Taegeuk Sam Jang): a turma no fundo da quadra olhando só pro gringo, pra ver o que ele vai fazer:

E a cara de mau é fator mais do que importante (e marca registrada) Nervoso :

Depois das formas, veio a luta. Curta e com a intenção de mostrar técnica. O juiz disse uma única palavra em inglês: "slowly" ("devagar"), ou seja, não é pra sangrar ninguém, não é competição. Ok, iniciei a luta numa boa, pronto pra mostrar o máximo de golpes que poderia.

Foi quando o moleque veio com um chute que, quando eu bloqueei com o braço, senti que no dia seguinte viria um lindo hematoma. "Aaahhh, muleque" - pensei - "se esse é seu 'slowly', então, vamos brincar que nem gente grande...". Dei-lhe uma pesada no tronco que o fez recuar e, daí pra frente, lutar mais "slowly". Moleque atrevido... Mal humorado

Na saída, ao conversar com o Mestre Kim, ele disse que tinha ido muito bem e que deveria aguardar o resultado para o meio da semana. A Beatriz também disse que gostou:

E na 4a. feira passada, recebi minha Faixa Preta de Tae Kwon Do. Para mim, uma grande conquista pessoal:

E, claro, tiramos uma foto com cara de (quase) mau (a gente não parava de rir):

E agora é continuar treinando, desenvolvendo a técnica e chutando cada vez mais alto:

Se a Beatriz gostou da nova faixa? Aparentemente, ela adorou e a achou, digamos, saborosa...

Esse é o tipo de coisa que faz a diferença quando você está fora do seu ambiente natural. Se envolver com alguma atividade típica do país onde você está faz com que você conheça a cultura do ponto de vista não do observador, mas "internamente", de uma forma mais completa. Experiência similar foi quando fizemos nossos cursos de música tradicional coreana, quando aprendemos a tocar o Danso, o Gayageum e o Janggu (videos AQUI, AQUI, e AQUI). Música coreana DE VERDADE, não essa porcaria de K-Pop!!!

Bom, ficamos por aqui, na expectativa que o Querido Líder do norte, Kim Jong-Il, não solte nenhum míssil. Semana que vem, fotos de Bukchon, uma vila com casas tradicionais coreanas, preservadas no meio da cidade.

David Carradine, o eterno Kwai Chang Caine, descanse em paz (1936-2009).

Annyonheghaseyo!

Renato & Selma



Escrito por Renato Maschetto às 17h34
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Que tal um polvo...vivo?

Post 134

Obs: adicionei aí ao lado direito na caixinha preta e cinza o meu "twitter". Vou tentar sempre colocar notícias do que está rolando por aqui, ao menos diariamente.

Uma das perguntas que mais ouvíamos quando estávamos de mudança pra Coreia (e que continuamos a ouvir até hoje) é: "É verdade que na Coreia se come carne de cachorro?". A resposta é "sim, é verdade". Muita gente encara isso com repulsa e indignação, mas nem de longe é a coisa mais estranha que alguém pode comer. E, mais pra frente, em outro post, falaremos um pouco sobre isso (que, na minha humilde opinião, não tem nada de tão absurdo assim).

Comida "estranha" tem em todo lugar, supondo-se que "estranho" se refira a tudo que é diferente para nós. Nós comemos kiwis sem casca, enquanto australianos e neo-zelandeses comem com casca. E eles acham "estranho" a gente descascar o kiwi. No Leste Asiático, come-se arroz feito somente no vapor, e é o arroz "unidos venceremos", para poder comer com palitos. Nós, no Brasil, refogamos o arroz, cozinhamos e o comemos "solto". Os japoneses e coreanos acham isso "estranho".

Claro que há algumas "iguarias" que são, mundialmente, consideradas "estranhas": espetinho de escorpião na China, sangue de cobra na Tailândia...e polvo vivo aqui, na Coreia.

Nós gostamos muito de polvo. A primeira vez em que comi polvo foi na Espanha, na Galícia, mais precisamente em Melide, na "Pulperia do Exequiel", quando estava a poucos quilômetros de concluir o Caminho de Santiago, em 2002. De lá pra cá, cada vez que ia pro litoral, sempre procurava algo com polvo. Na Coreia, nos esbaldamos: há um prato aqui chamado "Nakji Chookumi" , que é um polvinho refogado num molho BEM apimentado, com verduras e legumes, acompanhado de arroz. É sensacional! Mas, pelo menos, o polvo está morto...

Porém, para os coreanos, a verdadeira delícia é o "San nakji", ou seja, o polvo vivo.

A coisa é simples: pega-se o polvinho pequeno vivo (baby octopus), passa no molhinho, e manda pra dentro. O único problema é que tem que mastigar MUITO. Caso contrário, há o perigo de as ventosas grudarem na garganta enquanto estão sendo engolidas e causarem asfixia no fulano. O complicado é morder enquando os tentáculos ficam grudando na cara e lutando pra sair da boca!

Não, ainda não comemos San Nakji e, sinceramente, não pretendemos. Nós gostamos da nossa comida bem morta no prato, inclusive polvo.

Para ilustrar o que é o San Nakji, vejam o vídeo abaixo, educativo e esclarecedor:

E o Brasil é campeão!

 

Não, não é a seleção. Mas é o time de brasileiros expatriados na Coreia que faturou a Mini Copa do Mundo TBS eFM, sendo que alguns amigos nossos (Daniel, Roberto e Christian) participaram e ganharam do Usbequistão na final. Parabéns!

E as notícias estão nos jornais, na internet. Teoricamente, não preciso dizer que o funeral do ex-presidente que se matou mobilizou o centro de Seul, e que a Coreia do Norte continua ameaçando o Sul, dizendo que "o armistício não vale mais", "que provocações serão consideradas declarações de guerra", e etc. etc. . Eles sempre dizem isso...

O que começa a preocupar ligeiramente (mas nada que tire o sono) é o fato de os estadunidenses começarem a reforçar o contingente militar aqui no Pacífico. Acompanhemos...

Foto: Folhaonline

E 6a. feira foi o 4o. Mesversário da Beatriz! É, já é uma moça de 4 meses! Parabéns!

Annyonheghaseyo!

Renato & Selma



Escrito por Renato Maschetto às 19h40
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Efeito Brendan Fraser© "Reverso"

Post 133

Pra quem lembra, enunciei a teoria do "Efeito Brendan Fraser"© nesse post AQUI. Ela é muito simples: assim como confundimos os orientais achando que todos são parecidos, nós, ocidentais de ascendência européia, também somos todos muito parecidos aos olhos dos orientais. Tanto que as meninas onde corto o cabelo acham que eu sou parecido com o dito cujo ator...fazer o quê, o negócio é aproveitar essa vida de sósia de celebridade... Muito feliz

Porém, na última semana, passei por um processo similar ao Efeito Brendan Fraser©. Só que "ao contrário".

Estava no aeroporto, indo para a China. Sempre que vou pra lá, passo na loja de doces típicos coreanos e levo uma caixa pro pessoal do meu time em Shanghai. Eles adoram (aliás, ainda estou pra ver algo que os chineses não traçam).

As atendentes são todas ajummas, as tiazocas coreanas. Ao contrário das rudes e impetuosas "senhoras" (modo educado "on") que se degladiam com tudo e todos na rua, as ajummas no aeroporto estão sempre bem vestidas, com os penteados nervosões, maquiadas como gueixas (que elas não me escutem, ou vou arrumar briga comparando-as com japonesas). E, apesar de quererem que você compre a loja toda e ficarem te empurrando de um lado pro outro, são muito educadas.

Quando eu vou comprar os doces, eu sempre gosto de tentar usar um pouquinho de coreano para praticar. Claro, elas falam um mínimo de inglês: "korean traditional candy, very good, 20 thousand Won, you buy 2 boxes, very good, you like kimchi, buy kimchi, very good for you, what about ginseng, very good, man 'strong', huh, huh?". Mas é legal se comunicar em coreano: elas ficam impressionadas, esquecem do "empurra-pela-goela" e se ligam que você mora no país, então, não adianta tentar...fora que elas adoram um estrangeiro (qualquer um) de terno...

Quando estava comprando os doces e gastando meu vocabulário de cerca de 19 palavras e meia, uma das ajummas (tinha umas 5 em volta) olha pra mim e diz: "Ooohhh (toda frase coreana começa com "Ooohhh"), Yoon Soo-Il, bla-bla-bla imnida !", ao que as outras, em uníssono respondem: "Ooohhh!" e começam a rir entre elas, apontando para meu rosto com cara de espanto.

Entendi na hora que estavam dizendo que eu era parecido com algum coreano famoso, mas eu nunca tinha ouvido falar do tal Yoon Soo-Il. A Ajumma Master me disse que se tratava de um popular cantor que, na juventude, se parecia muito comigo.

Peraí: como um ocidental pode se parecer com um coreano??? Pedi uma foto, mas elas obviamente não tinham nada à mão. Anotei o nome do fulano e fui pro embarque, não vendo a hora e jogar isso no Google.

Já em Shanghai, perguntei para um colega coreano que trabalha lá se ele conhecia o famoso Yoon Soo-Il. Ele começou a responder "Sim, é um cantor fam..." e parou no meio da frase. Ficou me olhando com aquela cara de indagação que só os coreanos sabem fazer, dando uma quebradinha na cabeça para o lado, puxando o ar pelos dentes...e disse: "Você é muito parecido com ele" ! Aí, complicou! Eu perguntei como eu poderia ser parecido com um coreano, e foi quando ele me explicou que o cara é mestiço, ou seja, é o que os estadunidenses chamam de "korean-american", meio coreano, meio caucasiano. E a explicação mais lógica vinda dele: aos olhos dos coreanos, observam-se semelhanças e detalhes que não necessariamente nós, ocidentais, notamos. Claro.

Procurei a foto dele, achei, e não me convenci. Diz a Selma que são as sombrancelhas. Eu aposto no branco dos olhos:

Curiosidade a respeito de Yoon Soo-Il: ele é considerado o primeiro cantor mestiço da Coreia e em uma entrevista no ano passado afirmou ter sofrido muito preconceito no início de sua carreira, por razões óbvias. No entanto, sua primeira canção foi lançada em 1978, e nesse ano ele conquistou os prêmios de "Melhor Canção Pop do Ano" e "Rocker do Ano". A partir daí, sua carreira decolou. Mas ele afirma que, mesmo assim, teve que lutar muito contra o preconceito em função de sua aparência e condição de "sangue misturado". 

Em 2008, com mais de 30 anos de palco, Yoon Soo-Il lançou um álbum dedicado às famílias consideradas "multiculturais" e trabalhadores migrantes. Todo o lucro gerado com esse disco foi e será doado para famílias mistas e trabalhadores migrantes necessitados.

Legal isso. Em função de um Efeito Brendan Fraser© Reverso acabei esbarrando num caso de solidariedade contra o preconceito racial, valendo-se do meio musical.

E pra quem quiser conhecer Yoon Soo-Il, aí vai um vídeo de 1986 do moço:

E pra quem achava que os suicídios tinham dado um tempo por aqui, se enganou. Ontem, dia 23, foi dia de notícias quentes na península. Suicidou-se o ex-presidente Roh Moo-Hyun, que governou até o ano passado, quando foi substituído por Lee Myung-Bak (o atual, que foi eleito com mais de 70% de aprovação e depois tomou na cabeça com aquela estória da vaca louca).

Foto:JoongAng daily

Segundo a polícia, o ex-presidente pulou do alto de um monte onde caminhava. As investigações estão em andamento, mas a probabilidade de suicídio é grande. Roh e sua família estavam  envolvidos em uma investigação sobre corrupção durante seu mandato e, considerando a possibilidade de vergonha nacional, geralmente, a saída utilizada é o suicídio.

Uma nota foi encontrada em seu computador, e a blogueira Sonagi a traduziu do coreano para o inglês (abaixo, minha versão em Português):

"Eu estou em débito com muita gente.

Muita gente tem sofrido por minha causa.

Eu não posso levar o sofrimento deles mais para o futuro.

O resto da minha vida será apenas um fardo.

Eu não posso fazer nada por causa de minha pouca saúde. Eu nem posso ler ou escrever nada.

Não fique muito triste. Vida e morte são ambas parte da natureza.

Não lamente. Não tenha ressentimentos contra ninguém. É o destino. Cremem-me e construam um pequeno memorial perto da minha casa. Eu tenho pensado sobre isso há muito tempo."

Quem quiser ler mais, clique AQUI.

Foto: Hankyoreh

Annyonheghaseyo,

Renato & Selma



Escrito por Renato Maschetto às 19h45
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Renato e Selma (e agora, a BEATRIZ), brasileiros, na Coréia do Sul desde 2006. Annyonghaseyo!
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