COISAS QUE SÓ ACONTECEM COM VOCÊ NA ÁSIA - PARTE 2: O "EFEITO AMBULÂNCIA"
Ontem fui ao recital de piano dessa moça aí embaixo, Ji-Sun Kim:
Ela é esposa de um dos rapazes que trabalham conosco na empresa. Como eu ganhei o ingresso, achei que era quase que uma obrigação ir ao recital, já que isso é muito importante para os coreanos (o fato de você aceitar o convite). Não que tenha sido um peso, pelo contrário: como eu gosto de música, foi juntar - como diria minha vó - a "obrigação com a devoção". E valeu a pena: ela toca maravilhosamente bem, e tem uma expressão corporal muito marcante. Foi excelente.
Sabe quando você está sossegado na rua, esperando o ônibus, por exemplo, ou aguardando o farol fechar ("semáforo" para os amigos de fora de São Paulo) para você poder atravessar? Então, você está lá, olhando pro infinito, observando as pessoas, olhando pra cima pra ver se não tem nenhuma pomba estacionada nos fios...de repente, aquela sirene ardida corta o ar, você vira a cabeça e vê a ambulância vindo maluca pela rua, tentando abrir caminho pelo trânsito congestionado (se é emergência mesmo, ou o motorista com a bexiga cheia, é outra estória, vamos nos ater à ambulância barulhenta), passando no farol vermelho, fazendo o diabo. E todo mundo pára o que está fazendo pra olhar a ambulância, como se isso fosse ajudar ou resolver alguma coisa. E o povo não tira o olho da ambulância enquanto ela não sumir no horizonte e, ainda assim, continua olhando para a mesma direção, pensando, cogitando, divagando...até arrisca um comentariozinho inteligente com a tiazoca do seu lado: "É, tava com pressa"...
Aqui na Coréia (e na maioria dos países asiáticos) é a mesma coisa: quando a gente passa, todo mundo pára e fica olhando, analisando, comentando...não tem sirene, mas a cabeça mais fina, o nariz pontudo, os olhos grandes (não que meus olhos sejam tããão grandes mas, enfim...) chamam uma atenção braba! É como a ambulância: vira atração e, às vezes, motivo de espanto, dependendo de onde você está (quando você entra num restaurante típico coreano, é como nos filmes de bangue-bangue em que o pianista pára de tocar, e fica aquele silêncio: aqui, o pessoal pára de comer, fica te encarando...você faz cara de conteúdo, tira os sapatos e aguarda o garçom vir te atender - e, geralmente, eles são rápidos, pra evitar muita comoção).
Ontem, no recital, foi igual. A apresentação aconteceu num lugar pequeno, afastado do centro. Não é como no Teatro Nacional da Coréia, ou no "Seoul Arts Center", onde estrangeiros circulam normalmente. Nesse local, só coreanos e, no recital propriamente dito, a grande maioria era familiares e amigos. Quando entrei na sala de concerto, pude sentir (e ver) os olhos me observando e acompanhando todos os meus movimentos. Felizmente, o rapaz veio me cumprimentar e ficamos conversando um pouco, o que fez com que a vida voltasse ao normal e esquecessem de mim.
Hoje, após mais de 2 anos morando por aqui, isso não nos incomoda tanto. E, rodando pela Ásia, pudemos experimentar essa sensação em vários lugares. Mas, sem sombra de dúvida, aqui na Coréia foi (e ainda é) onde sentimos mais o "efeito ambulância". Em alguns lugares de Seul é mais tranquilo mas, em algumas vizinhanças e fora da capital, a coisa é complicada. Mesmo perto do escritório, que fica em Incheon, a terceira maior cidade da Coréia, ainda é comum andar pela rua e ter as pessoas te olhando com um misto de curiosidade e desconfiança. Em relação às crianças, elas param na sua frente, olham pra sua cara e ficam de boca aberta com cara de espanto:
E pode fazer careta, dar risada, tentar conversar...nada! Ficam estáticas, não esboçam um sorriso sequer (é impressionante a frieza das crianças coreanas em relação aos estrangeiros, nunca vimos nada parecido).
Enfim, a Coréia é um país que ainda está se abrindo para o mundo. Apesar do desenvolvimento alcançado (que tem sido discutido avidamente nos últimos meses sob a ótica de "quais serão os próximos passos", principalmente em função de toda aquela estória da carne estadunidense e etc.), ainda existe uma grande resistência ao estrangeiro, ao diferente, ao "fora do padrão". E isso é pra tudo: moda, música, consumo, etc. . Ou seja, o "efeito ambulância" ainda vai demorar um tempo para desaparecer. Mas, com a juventude viajando mais e interagindo com os estrangeiros, a mudança é iminente.
Falando em crianças coreanas (vocês lembram da garotinha cega, vejam AQUI), esse aqui também é uma pérola: vejam o garoto (quantos anos ele tem, 3, 4?) cantando "Hey Jude". Impressionante ver a afinação (para a idade dele) e a noção das palavras. Especial atenção ao trecho "better, better, better, better, aaaahhhhhh" :
Se vocês ainda não leram AQUI, então aí vai: o ultrassom que fizemos na última 6a. feira indicou que teremos uma menina! Quer dizer, a médica disse "It is flat" ("É achatado"), e não disse diretamente que seria uma menina. Bom, já esperávamos que ela não fosse falar, se é que vocês lembram desse post aqui, onde explicamos que, aqui na Coréia, os médicos não mencionam o sexo do bebê por razões nefastas de preferência por meninos. E, apesar da nova lei do final de Julho (onde falar o sexo do bebê está liberado), a médica disse que a coisa ainda não está 100% aprovada...bom, mas saber que é "flat" já foi o suficiente.
Agora vem a saga da escolha do nome. Já temos alguns favoritos em mente, possivelmente levaremos mais uns dias ainda até escolher o definitivo. Em paralelo, vamos nos preparando para o evento em Janeiro: tem que se equipar com os diversos apetrechos, móveis, roupas, etc. . Aos poucos, aos poucos...
E, em fase de preparação, a Selma vai dar uma escapada para o Brasil nesta semana (enquanto ela ainda pode viajar de avião), e ficará por lá durante algumas semanas, para ver a família e os amigos. Depois, de volta à Coréia, começará a etapa final que irá até o pico do rigoroso inverno coreano.
A propósito, uma das melhores empresas de aviação da Coréia (e posso dizer, do mundo), a Korean Air, agora tem vôos para o Brasil via EUA. Um absurdo de caro, e ainda tem que passar pela ridícula imigração estadunidense. Deixa pra lá, vamos de outras formas alternativas, mesmo. Interessante é a série de comerciais que eles lançaram para essa nova rota. São três comerciais, chamados "Verde", "Amarelo" e "Azul". Abaixo, o "Verde":
As Olimpíadas terminam hoje, e nós, graças à fantástica e excelente TV coreana, não conseguimos acompanhar absolutamente nada. Afinal de contas, é mais importante ficar passando, repassando e tornando a repassar os lances coreanos apenas. Ora, não tem mais nada de interessante além da participação da Coréia, não é mesmo? Pra quê ver futebol, vôlei, basquete, atletismo? O legal mesmo é ver 27 vezes por dia o nadador coreano vencendo a prova; ou, quem sabe, ver 24 vezes por dia o carinha do judô; ou, mais recentemente, os meninos que ganharam o ouro no Taekwondo...
Bom...a Coréia é o berço do Taekwondo, e é natural que arrebatem uma grande quantidade de medalhas. Mas não sei se alguém aí viu as finais, principalmente o feminino até 67kg, e o masculino até 68kg e acima de 80kg. Em especial, as finais masculinas:
- no até 68kg, Mark Lopez acertou bons golpes no coreano, e nada. No último segundo, empatados, um chute do coreano e pronto. Coréia campeã (sob vaias e protestos da platéia);
- no acima de 80kg, o grego Nikolaidis dominou a luta o tempo todo, acertou vários chutes, mas não teve jeito. Chutes mais fracos do coreano valeram pontos, e lá foi-se a medalha (também, sob vaias da torcida);
Não quero ser o preconceituoso aqui, mas vi as lutas várias vezes (acreditem, VÁRIAS vezes, pois foram reprisadas incessantemente). Muitos golpes limpos não pontuaram. Sei o quanto é difícil para o juiz (já estive nesse papel), mas é muito fácil pensar em marmelada. Espero que não. Não discuto a hegemonia dos coreanos nesse esporte, mas o que vi nas lutas foi algo bem diferente nessa Olimpíada...tanto que o cubano se exaltou e desceu (subiu?) a perna no juiz...
Mas fiquem com os Korean Tigers, a equipe nacional de demonstração: feras! Olhaí:
Vários filmes estrearam na Coréia antes da data convencional ao redor do mundo: Superman Returns estrou antes, Indiana Jones estrou antes, Speed Racer estrou antes...por quê Batman - The Dark Knight foi estrear 1 mês depois??? Não sei. "Coisas da Coréia", talvez.
Foi 1 mês de espera, e 6a. feira conseguimos, finalmente, ver o filme, em IMAX !
Não vou fazer vocês passarem por minha análise do filme, senão posso ficar aqui por linhas e linhas...só posso dizer que a espera valeu a pena: o filme é sensacional! E pronto! Assim como o anterior - "Batman Begins" - continuamos a ter um Batman decente, fiel aos quadrinhos, o verdadeiro Cavaleiro das Trevas, como definido por Frank Miller em seu épico homônimo "Batman, o Cavaleiro das Trevas", de 1986:
Além de um Coringa assustador e completamente insano, como deve ser. Um filme absolutamente fantástico.
Agora, a expectativa é para o próximo lançamento de Dezembro. Se vai ser bom...difícil dizer. O teaser trailer é de arrepiar, tomara que o filme faça jus a ele:
Espero que, no Brasil (ou em outros países), vocês estejam acompanhando as Olimpíadas. Pois aqui, nós não estamos! Aqui, só televisionam competições onde a Coréia compete e, mesmo quando não estão competindo, os canais de esporte ficam passando e repassando replays das vitórias coreanas. Ao invés de mostrarem outas competições ao vivo enquanto a Coréia não compete (afinal de contas, estamos apenas 1 hora à frente de Beijing), ficamos só nas reprises. Ou seja, dá-lhe o menino da natação, a equipe de arco e a mocinha do levantamento de peso:
Nesse meio tempo, duas observações interessantes a respeito dos coreanos nas Olimpíadas:
1) durante as provas de levantamento, todos os pesistas geralmente passam nas mãos pó de magnésio, com o objetivo de evitarem que a barra escorregue. É possível ver os atletas passando o pó assim que sobem ao tablado onde encontra-se o peso. Todos utilizam o pó da mesma caixa, que encontra-se em cima do tablado, exceto as atletas coreanas: elas utilizavam um pó de um saquinho separado, nas mãos do técnico. Porquê, eu não sei...
2) a torcida coreana esteve presente na maioria das competições. Ora, estamos a menos de 2 horas de vôo de Beijing, e os vôos são baratos. Isso deu um bom incentivo aos atletas, o que é louvável. Mas, sinceramente, acho que a torcida deveria adotar uma estratégia diferente em relação aos gritos de guerra: o nome da Coréia, em coreano, é algo próximo de Te-Han-Min-Guk (대한민국). Isso é o que os coreanos ficam gritando o tempo todo. Ora, com exceção deles, ninguém mais sabe que isso significa "Coréia". O mundo inteiro conhece como "Korea". Então, se é pra intimidar o time adversário, porquê não gritar "Korea, Korea"? Com certeza seria mais impactante...
Algumas semanas atrás estava "youtubando" (aprendi essa num dos comentários que deixaram aqui no blog ), procurando vídeos sobre o "Britain's got talent", aquela versão melhorada do Show de Calouros. E encontrei essa menina, Connie Talbot, uma garotinha inglesa de 7 anos que chegou à final da disputa, com uma voz fantástica para sua idade - e sem aulas de canto:
O que isso tem a ver com a Coréia? Bom, nos vídeos relacionados, encontrei essa outra garotinha coreana: Yoo Ye-eun, 5 anos, cega de nascença (ela nasceu sem os globos oculares). O que ela tem de especial: aos 3 anos de idade, começou a tocar piano "de ouvido", ou seja, sem aulas, sem nada! Não tem o que falar, vejam o vídeo. Na primeira parte, ela toca e canta uma música coreana; na segunda parte, ela faz um dueto com a inglesinha Connie Talbot, com a música "You raise me up":
Ela foi abandonada por seus pais biológicos, e adotada posteriormente. Aos 3 anos, surpreendeu seus pais adotivos quando, ao sentar ao piano, começou a tocar uma música tradicional coreana que sua mãe adotiva costumava cantar. A partir daí, seu pai colocava uma música qualquer no computador, e ela a reproduzia ao piano, após ouví-la apenas uma vez. Sem aulas.
Abaixo, uma breve matéria sobre Yoo Ye-eun. Um verdadeiro prodígio, uma força da Natureza:
Lembrete: quando tem um texto em azul no post, significa que tem um link com mais informações. Então, cliquem sempre que virem um desses textos azuis, ok?
Primeiro, foi a visita do Bush aqui em Seul. Dá pra imaginar? AQUI, na terra dos protestos??? No caminho pra Beijing, ele resolveu dar uma paradinha aqui. E, claro, protesto contra Bush, protesto a favor do Bush, protesto contra quem protesta contra o protesto a favor do Bush:
A favor:
Contra:
Aí, o início das Olimpíadas em Beijing, na cabalística data de 08/08/08 às 8:08h. Foi o assunto da semana, todos na expectativa da cerimônia de abertura (que foi excelente, sem sombra de dúvidas).
E, pra quem não sabe, os hospitais na China foram praticamente infestados por mães querendo dar à luz seus filhos e filhas na última 6a. feira, por tratar-se de uma data extremamente "sortuda" para os que acreditam em numerologia e sortilégios do gênero. Considerando a população da China (1.3 bilhão, certo?), imaginem a muvuca nos hospitais!
Ontem, depois de mais de 1 ano, conseguimos ir a um concerto novamente. Fazia muito tempo que não íamos, desde Março do ano passado. Fomos ao Seoul Arts Center, que está com uma série de concertos focando em compositores específicos:
Ontem, como era Beethoven (com a Filarmônica de Gunpo), não podia deixar passar, principalmente porque duas de minhas obras favoritas seriam interpretadas: a "Abertura Egmont" (nunca ouviu, clique AQUI e veja Karajan regendo a Filarmônica de Berlim) e a destruidora "Sétima Sinfonia", que tem no seu 2o. Movimento uma das coisas mais geniais da história da música.
Na Sétima Sinfonia, 2o. Movimento, Beethoven repete o mesmo tema do início ao fim, alterando apenas, basicamente, a orquestração. Além do tema ser detonante, a música cresce de uma forma que faz com que você não queira que a peça termine, você quer saber o que vem depois (Maurice Ravel usou uma fórmula semelhante anos depois no seu Bolero, e até hoje é reconhecido como um gênio da orquestração).
Não sabe qual é a Sétima Sinfonia? De Beethoven só conhece a Quinta e a "Ode à Alegria" da Nona? Então, clica abaixo e sinta o peso! Especialmente a partir de 2:10min, e descubra porquê Beethoven é o Heavy Metal do fim do séc. 18:
BEETHOVEN GENIODOZINFERNO!
Com o calor pegando (basta ver o clima em Seul na barra direita do blog), fica complicado ficar na rua. A temperatura tem estado em torno dos 34oC, e a umidade nas alturas. As chuvas já foram embora, então agora é esperar a temperatura melhorar um pouco para voltar às atividades outdoor. E, depois, no inverno, reclamar que está muito frio, que não dá pra andar na rua por causa da temperatura abaixo de 0oC, blá, blá, blá...nunca tá bom, tem sempre que chiar...
Entrando no 5o. mês, a barriga está crescendo (não a minha, a dela!), e agora já parece um pouco mais que está grávida. O problema é conseguir se virar com as roupas que tem, pois roupa de grávida na Coréia não serve: como as mulheres aqui são muito mignon, uma roupa de grávida é mais ou menos equivalente a um tamanho M no Brasil. Ou seja, não ajuda muito. Fotinhos:
E tem mais umas novidades na barra direita do blog:
- o UNIQLOCK, um relojinho japonês muito legal que mostra 6 segundos e, em seguida, um videozinho sincronizado de dança por 4 segundos;
- o mapa de visitantes, mostrando de onde o pessoal está acessando o nosso blog. Não sabia que gente de Poá, Anápolis, Jacaraci, Niquelândia, Ananindeuá, Brejo da Madre de Deus passava por aqui! E de outros países, dos locais mais diferentes: Faro, Funchal, Slagelse, Lyss, Istanbul;
- alguns livros que a gente gostou de ler e recomendamos para os amigos(as) que também se entretêm com leitura;
E como hoje é Dia dos Pais no Brasil, parabéns a todos os pais que lêm este blog, em especial ao meu pai, o homônimo Renato e ao pai da Selma, meu sogro, Sr. Francisco.
COISAS QUE SÓ ACONTECEM COM VOCÊ NA ÁSIA - PARTE 1: O "EFEITO BRENDAN FRASER"
Até cerca de 20-30 anos atrás, os únicos orientais que víamos no Brasil eram, provavelmente, os japoneses. Após a maciça imigração italiana e espanhola entre o final do séc. 19 e início do séc. 20, em 1908 atracou no porto de Santos o navio Kasato Maru, trazendo os primeiros imigrantes japoneses para o Brasil. A partir daí, mais imigrantes nipônicos chegaram e se estabeleceram no Brasil - principalmente em São Paulo - e fizeram sua vida ao lado dos demais imigrantes europeus e descendentes. Obviamente, chineses e coreanos chegaram depois, mas os japoneses e suas famílias continuaram sendo maioria.
O Japão sempre foi o país asiático que mais se destacou no mundo, famoso pela fantástica reviravolta após as guerras e pelo altíssimo nível de desenvolvimento alcançado. Sendo hoje a 2a. maior economia do mundo, continua símbolo de tecnologia de ponta e credibilidade, além de fascinar-nos com sua cultura e tradições.
Esses fatores - entre outros - fizeram com que, naturalmente, o Ocidente associasse qualquer coisa asiática aos japoneses: quantas vezes não vimos um oriental na rua e, automaticamente, pensamos nele(a) como um japonês(a)? Poderia ser um chinês, um coreano, um tailandês...mas como sempre tivemos muitos japoneses ao nosso redor, a generalização é inevitável. E por termos no Brasil menos representantes de outros países asiáticos, sempre foi difícil distinguir as nacionalidades, fazendo com que o comentário preconceituoso "Mas é tudo igual mesmo..." fosse feito diversas vezes (e é feito até hoje, ouvimos isso sempre, e tentamos corrigir quando possível).
Morando na Ásia, a coisa fica diferente: após 2 anos na Coréia, hoje podemos distinguir a maioria dos povos. Hoje, olhando para um asiático, podemos dizer com cerca de 80%-90% de certeza se é daqui da península(Coréia), se é da ilha(Japão), se é do "País do Meio" (a tradução literal para o nome da China), ou se é do Sudeste Asiático (Tailândia, Vietnã, Camboja, Filipinas, etc., mas ainda é difícil distinguir as nacionalidades daquela região).
O formato da cabeça, as sombrancelhas, a proporção do corpo, a boca. E, principalmente, os olhos. É onde você, geralmente, mata a charada. Mas, para quem não está exposto a isso, fica complicado, praticamente impossível reconhecer a etnia:
Da esquerda pra direita: coreana, japonesa, chinesa
Coreanos e japoneses são grupos muito homogêneos. Na China, no entanto, 92% dos chineses pertencem ao grupo étnico "Han" (1.2 bilhões). Além desse grupo, há outros 55 grupos étnicos oficialmente reconhecidos, totalizando, aproximadamente, "só" 105 milhões: Zhuang, Manchu, Hui, etc.. Esses outros grupos apresentam traços físicos diferenciados dos Han, então dá pra imaginar a diversidade na China.
Essa introdução toda foi pra dizer que a coisa aqui no Oriente não é diferente do Ocidente: para os coreanos, todo ocidental é igual. Loiro, moreno, bronzeado, branquelo, magro, gordo, baixo, alto: não tem diferença, é todo mundo "Miguk Saram", ou seja, "Americano" (ou, como prefiro dizer, "estadunidense").
Muitos vão achar isso um absurdo. Ora, um italiano é diferente de um espanhol, que é diferente de um alemão! E um sueco é diferente de um mexicano! Como pode achar tudo igual???
Bom, eles vão responder: e vocês ocidentais não acham japonês, chinês e coreano tudo igual também???
Tudo é uma questão de convivência: como sempre convivemos com europeus, conseguimos identificar a maioria dos traços típicos de cada povo (e muitos de nós somos descendentes). Os coreanos não, então, assim como para nós os orientais são "todos iguais", para eles, os ocidentais são todos "americanos". E, em resumo, somos todos muito diferentes e, ao mesmo tempo, iguais...filosoficamente falando...
E aí acontece o fenômeno "Movie Star" ou, como batizei recentemente, o "Efeito Brendan Fraser" (Copyright @2008 Renato).
Ano passado, fui cortar o cabelo. Não naquele lugar sobre o qual falamos AQUI. Esse lugar fechou. Agora, vamos em outro. Então, na primeira vez que fomos lá, a menina começou a cortar meu cabelo. Aí, ela chamou a outra e começaram a discutir em coreano. Após chegarem a um acordo, a que falava inglês me disse:
"Você parece aquele cara do cinema!"
"Qual cara? Tô longe de ser movie star!"
"Ai, eu não sei o nome do filme em inglês...em coreano é 미이라 ("Miira")..."
"Como é o filme?"
"Ah, é no Egito, tem os tesouros, os bandidos..."
"A Múmia???"
"Isso! Esse mesmo! Você parece com o cara do filme!"
"Brendan Fraser???"
"Isso mesmo!"
Seguiram-se risinhos coreanos e minha cara de "essas-meninas-são-sem-noção". E, sabendo que na Coréia praticamente não existe ironia ou sarcasmo, elas estavam falando sério. Eu parecido com o Brendan Fraser! Só se for o branco dos olhos!
Bom, isso foi no ano passado...no início deste ano, a menina foi embora, e outra entrou no lugar dela. O primeiro comentário dela para a dona do lugar quando sentei na cadeira foi (em coreano): "ooohhhhh-bla-bla-bla-bla-bla-Miira-bla-bla-bla-bla...".
Claro que eu nunca mais esqueci como se fala "Múmia" em coreano. Imediatamente eu perguntei pra dona o que ela estava falando e ela, toda cheia de pompa, disse que a menina me achou parecido com o nosso amigo Brendan "Homem da Califórnia / George da Floresta / Rick O'Connell" Fraser...aí comecei a achar até que meu olho estava ficando azul, já...
Semana passada, fui cortar o cabelo e...bom, não preciso entrar em detalhes. A nova ajudante olhou pra outra e disse: "ooohhhh-bla-bla-bla-Miira-bla-bla-bla?"...
Isso mostra o quanto somos iguais e/ou parecidos para os coreanos (apesar de sabermos que somos muito diferentes). Me confundir com o Brendan Fraser foi a gota d'água da falta de referência, ainda que extremamente lisonjeiro e levantador de moral. A Ásia não é fantástica???
Bom, mas tirem suas conclusões. Abaixo, a foto da esquerda é do Brendan Fraser. A da direita, é minha. Somos parecidos? Vocês digam:
E a gravidez vai bem, tudo em ordem no último ultrassom. Estamos em vias de saber se será menino ou menina, o que é algo interessante aqui na Coréia.
Uma lei introduzida em 1987 na Coréia do Sul impedia os médicos de dizerem aos pais o sexo do bebê. O motivo: o alto índice de abortos de meninas, visto que, na cultura coreana, o mais importante é ter o primogênito menino. Quando os indicadores demográficos começaram a mostrar o problema (que todo mundo já sabia), a lei foi criada. Assim, evitou-se muito o aborto de meninas, garantindo também um melhor balanceamento entre homens e mulheres no país.
Curiosamente, essa lei foi derrubada na última 5a. feira, dia 31. A partir de agora, os pais têm o direito de saber o sexo do bebê. O motivo alegado foi a mudança pela qual a sociedade está passando, onde as mulheres são mais bem aceitas agora, além de uma campanha chamada "Love your daughter" (Ame sua filha), onde procuravam mudar a cabeça dos pais, evitando mais abortos de meninas. Ponto positivo!
Com estrangeiros isso não se aplica muito pois, em geral, ocidentais não estão preocupados se é menino ou menina. Mas, aqui na Coréia, até então, os médicos davam um jeito de falar o sexo do bebê de forma "indireta" para os estrangeiros, já que a lei estava em vigor. No nosso último ultrassom, a médica disse: "Bom, na próxima consulta, vamos poder saber se é "flat"(achatado) ou "not flat"(não achatado)"...
Eu sei que parece piada, mas é verdade! Talvez agora sem a lei a coisa mude, mas que não faz sentido falar "flat" ou "not flat" ao invés de "menina" ou "menino", não faz mesmo! Mas é isso que torna a experiência asiática mais interessante ainda.
This Traveler IQ was calculated on Tuesday, February 24, 2009 at 01:05PM GMT by comparing this person's geographical knowledge against the Web's Original Travel Blog's 3,717,512 travelers who've taken the challenge.