Pra quem lembra, no ano passado enunciei duas teorias: o Efeito Brendan Fraser e o Efeito Ambulância (é só clicar nas palavras em azul ao lado para relembrar). É hora de falar do "Efeito Moisés".
A Coreia é um país pequeno, mas com uma população grande para sua área. Quando pensamos em Seul, a coisa fica mais crítica ainda: com cerca de 10,5 milhões de pessoas (dado de Dez de 2008), sua densidade demográfica é de 17 mil pessoas por km2, sendo uma das 50 cidades mais densamente povoadas do mundo ! Como referência, a densidade demográfica de São Paulo é de 7 mil pessoas por km2...e olha que São Paulo tem gente...
Dá pra entender o que tem de coreano na rua?
Com isso, uma das coisas mais inevitáveis é trombar em pessoas pela rua. Trombar literalmente, isto é, bater ombro com ombro, dar de cara com alguém olhando pra trás, pisar no pé, e por aí vai. O interessante é que ninguém pede desculpas. Algo que, a princípio, soa como "falta de educação", mas "educação" é algo bem abrangente e, me atrevo a dizer, regional.
Andando pelas ruas do Japão - outro país "lotado" - você não observa o mesmo fenômeno. E, quando alguém tromba em você, prepare-se: a pessoa desfiará um rosário de desculpas. Ela pára, vira pra você, abaixa e levanta o corpo diversas vezes e pede desculpas antes de continuar seu caminho.
Alguns teóricos argumentam que, por tratar-se de uma ilha, o Japão não teve outra forma de se desenvolver a não ser através da tolerância e polidez extrema. Ora, num pedaço de terra pequeno, cercado por água, é melhor todo mundo se comportar, senão vira uma verdadeira panela de pressão. Sem ter por onde evadir, a coisa explode com facilidade. Então, melhor todo mundo estar de bem com todo mundo.
Na Coreia, a coisa é diferente. Como nos apresenta Won-bok Rhie em seu excelente livro "Korea Unmasked", a lógica coreana envereda por outro caminho: com tanta gente na rua, não tem como não trombar um no outro. "Isso é normal e nós coreanos estamos acostumados. Não precisamos pedir desculpas, pois somos todos coreanos".
Ou seja, "educação" é algo relativo: na nossa cultura somos ensinados a pedir desculpas quando isso acontece. Na cultura coreana, isso não é necessário, assim como "pedir licença" para passar. Somos todos coreanos, aqui tem muita gente, é só empurrar e passar. Na Coreia, isso não é errado ou considerado "falta de educação".
Para o estrangeiro, esse é um dos pontos que mais incomoda quando se chega à Coreia: no metrô, no elevador, ao atravessar portas vai-e-vem...depois de um tempo, você se acostuma (ou fica louco).
Mas navegar por esse mar de gente demanda técnica e astúcia. Ao longo dos primeiros meses em solo coreano, eu sempre me sentia meio como Neo em sua primeira visita ao simulacro da Matrix, com Morpheus, após seu despertar:
Por diversas vezes, eu percebi que, ao olhar para as pessoas que vinham em minha direção, caso elas notassem meu olhar, elas raramente alteravam sua rota, e entravam em modo de colisão. Eu desviava. Até hoje não sei se eles miravam ou se valia a lógica chinesa: "se você está olhando, você é responsável pela ação".
Momento cultural: um colega que mora em Shanghai disse-me que, ao entrar para o grupo de "night bikers" de lá, ele recebeu uma lista com recomendações. Uma delas dizia: "ao atravessar um cruzamento, JAMAIS olhe para os lados. Se o motorista que está vindo perceber que você o viu, ele não diminuirá a velocidade. No caso de um acidente, VOCÊ será o responsável, pois viu o carro antes". Curiosidades...
Um dia, resolvi testar uma hipótese: e se eu não olhasse para frente, o que aconteceria? Bem, aconteceu o que eu esperava: Efeito Moisés total!
Isso mesmo: todo mundo começou a sair da minha frente, eu me sentia o próprio Moisés dividindo o Mar Vermelho! Ora, se não estou olhando, eu não tenho culpa se alguém trombar em mim. Então, todo mundo começou a desviar. E, daí em diante, foi só aprimorar a técnica e usar sempre que necessário.
Alguém irá perguntar: e se duas pessoas, ao mesmo tempo, não estiverem olhando e trombarem? Bom...vai ser um estrago. Mas, até hoje, foi só sucesso, nenhum contratempo. Técnica aprovada e patenteada: Efeito Moisés!
Obs.: "Efeito Moisés" também pode designar o efeito causado por um péssimo DJ em uma casa noturna. Quando ele toca, a pista se abre e não sobra ninguém. Quem me contou essa foi o DJ Akeen, quando fiz um curso com ele há uns bons 7-8 anos atrás.
Em 1o. está Tóquio, em 2o. Hong Kong e em 3o. Lagos, na Nigéria. Das 276 cidades da lista, a única brasileira é Brasília, em 86o. lugar.
Ano passado, Seul estava em 41o. Posso entender o fato de Seul cair um pouco em função, principalmente, da desvalorização da moeda (mais de 40%) no início de 2009. Mas ir para 163o. me parece demais. Afinal de contas, muita coisa básica aqui ainda é extremamente cara. Ontem mesmo, no supermercado, vimos o preço do quilo do arroz subir para KRW 4,000 (US$ 3.40, ou cerca de R$ 6). Frutas e legumes, também, sempre muito caros (devido às taxas e aos intermediários).
Outras coisas, por outro lado, são mais baratas: por exemplo, almoçar (bem) num restaurante coreano simples vai lhe custar uns KRW 5,000 (uns R$ 7,70). Provavelmente, você vai gastar, no mínimo, o dobro num restaurante por quilo no Brasil.
Se bem que eu não gosto de ficar convertendo. Quando viajo, sim, converto antes de comprar algo, pois minha base salarial está em outra moeda. Aqui, no entanto, como sou remunerado em KRW, não faz sentido ficar convertendo a toda hora, pois meu gasto é na mesma moeda. O ideal é ajustar seus gastos e custo de vida para a moeda local e partir daí. Dessa forma, é possível balancear o que vale a pena comprar ou não, com exceção do que é necessário (leite, pão, arroz, vegetais, etc.). Se bem que, quem conhece a gente, sabe a dupla de murrugas que somos, então...
E amanhã é aniversário da patroa! Favor parabenizarem-na!
Em notícias relacionadas, mãe e filha de um homem acusado de molestar sexualmente sua filha entraram com um recurso a fim de pedir uma pena maior para o homem (a sentença atual é de apenas 2 anos)...
Falando de coisas boas, durante o feriado aproveitamos para estrear o novo carregador da Beatriz num parque aqui perto de casa, o Yongsan Family Park.
Momento cultural: aula de geografia coreana
A Coreia do Sul (ou, mais corretamente, a República da Coreia) é um país dividido em 8 províncias, chamadas "do", em coreano:
Além das 8 províncias há 6 "cidades metropolitanas" (Pusan, Incheon, Daegu, Gwangju, Daejeon, Ulsan) e 1 "cidade especial", que é Seul, a capital do país. Apesar de essas cidades estarem geograficamente dentro das províncias, elas são consideradas separadamente em termos administrativos. Por exemplo: Seul está localizada na província de Gyeonggi (Gyeonggi-Do), mas não se associa Seul à essa província, formalmente.
Dentro de cada província encontram-se as cidades ("si" em coreano). Dentro de Gyeonggi-Do, por exemplo, há a cidade de Ilsan (Ilsan-si). As cidades, por sua vez, são divididas em "distritos", chamados "gu". Exemplo: um dos mais importantes distritos de Seul é o Yongsan, ou "Yongsan-Gu" (que é o distrito que dá nome ao parque acima e, também, é o distrito onde moramos).
E o próximo nível são os bairros, dentro dos distritos. Os bairros são conhecidos como "dong". Nosso bairro, para ilustrar, é o "Hannam-Dong".
*só pra exemplificar pois, na verdade, sendo uma cidade especial, além de não ser associada a Gyeonggi-Do, o nome correto é Seul "Teukpyeolsi", e não Seul-Si.
Fim do momento cultural...
De volta ao parque, a área pertencente ao atual Yongsan Family Park era, anteriormente, um campo de golfe dos militares estadunidenses estacionados em Yongsan. Em 1991, a área foi devolvida ao governo de Seul e em 2005 o parque foi entregue ao público.
Com a Beatriz instalada, partimos para a caminhada:
O parque é pequeno, mas agradável. E, como fomos pela manhã, ainda estava vazio, dando uma atmosfera mais calma ao local:
O parque abriga um pequeno jardim de "pagodas" (construções religiosas comuns por toda a Ásia, geralmente, budistas):
Obs.: a palavra "pagoda", suspeita-se, originou-se do termo português "pagode", de mesmo significado ("templo de uma religião oriental"), cuja primeira utilização data do início do séc. 16. MUITO ANTES da apropriação pelo estilo musical praga atual...(e, segundo fontes históricas, pagode era também o termo utilizado para as festas nas senzalas).
Abaixo, mais algumas fotos do parque:
Que eu não suporto K-Pop muita gente já sabe. Na minha extremamente humilde opinião, o gênero é bem ruizinho. Por ser coreano? Não(aliás, posso garantir que o C-Pop e a produção similar no Sudeste Asiático é bem pior). Por que, então? Além da pobreza musical e falta do fator "origem suada, real e natural", o estilo(!?) é irritante, assim como outras pérolas do cancioneiro pop mundial. Claro, o fato de ser baseado em grupinhos idênticos entre si, com integrantes que mal sabem cantar, coreografias pra lá de fracas, e que surgem na mídia mais rápido do que você pode absorver e descartar ajuda também...
Mas não estou aqui pra detonar o K-Pop. Deixa isso pra outro post específico. Hoje quero dizer que tem 1 (um) exemplar do K-Pop que eu acho sensacional! O melhor de todos! Imbatível! E desafio alguém a achar algo melhor que essa dupla!
O motivo: os caras não se levam a sério. É só prestar atenção na letra da música. Seriam os Mamonas Assassinas da Coreia? Não sei. Só sei que essa música abaixo é a campeã!
Com vocês... NoRaZo, e seu hit "Chupoman" !!! (ou melhor, "Superman"):
Um caso que ganhou notoriedade na internet coreana e agora está sendo veiculado também na midia em língua inglesa é um dos mais chocantes que eu já vi até hoje: um tal de "Sr. Jo", de 57 anos, estuprou violentamente uma menina de 8 anos de idade, de forma que seu ânus, colon e genitais foram destruídos (literalmente). Segundo os médicos, ela viverá pelo resto de sua vida com os ferimentos, mesmo após os procedimentos cirúrgicos e tratamentos. Segundo os especialistas, hoje não há esperanças para ela.
O crime já é horrível por si só, e sabemos que isso pode ocorrer em qualquer lugar do mundo, não só na Coreia, mesmo apesar de se ler muito sobre estupros por aqui. Mas em uma menina dessa idade...
Pois bem, o pior vem a seguir: em resumo (e depois eu deixo os links para quem quiser ler mais), o tal Sr. Jo foi condenado a apenas 12 anos de prisão. O motivo: ele estava bêbado, então, ele tem uma desculpa que atenua sua pena.
Cada um coloque-se no lugar da menina ou dos pais dela. Acessando este link aqui pode-se ler o caso, e alguns depoimentos da própria menina e de seus pais. Os internautas coreanos pedem a pena de morte (que ainda é praticada na Coreia), e seu pai diz que, se não é possível aplicar a pena de morte, ao menos que ele seja aprisionado para sempre.
A mãe da garota apelou ao Presidente da Coreia, revelando detalhes do sofrimento de sua filha: pelo resto da vida, ela terá que drenar suas fezes como água, já que seu sistema digestivo foi destruído, enquanto que o animal ficará apenas 12 anos na prisão. Este link aqui traz as palavras da mãe, e um desenho feito pela menina, que está sofrendo no hospital.
Vamos deixar a coisa um pouco mais nefasta: além do fato "estar bêbado" ser, realmente, um atenuante legal na Coreia, o fato de o maldito ter pego apenas 12 anos deve-se à lei coreana. Crimes "desse gênero", ou seja, estupro de um menor, pegam de 6 a 9 anos e, em casos mais "extremos", a pena vai de 7 a 11. Então, 12 anos foi até "muito", considerando a atual legislação coreana (que, provavelmente, receberá muita atenção agora, em função da exposição gigantesca).
De acordo com uma das agências de notícias, o juiz havia decidido por prisão perpétua. Mas como foi comprovado que o ajoshi estava bêbado, as regras são claras: a pena poderia ser apenas entre 7 e 15 anos. Mas informações podem ser obtidas aqui.
É de virar o estômago. A propósito, este outro link traz estatísticas mostrando que, em 2008, penas severas foram dadas mais para casos de roubo e assassinato que para crimes sexuais. Além disso, um estudo mostrou que a cada 1000 presos, apenas 4 ou 5 receberam uma sentença de no mínimo 10 anos. Prisão perpétua foi imposta em 20 casos de assassinatos, 17 de roubos e 8 de crimes sexuais.
Fora isso tudo, o precedente que se abre é assustador: quantos outros maníacos não se sentirão tranquilos para continuarem cometendo seus crimes? Ora, 12 anos não é nada perto do que a menina sofreu e está sofrendo e, segundo ouço por aqui, as prisões coreanas não chegam nem perto das prisões no Brasil ou EUA em termos de "justiça atrás das grades" (e vocês entendem do que estou falando). Ou seja, o risco é pequeno para um doente como esses (e sempre tem a desculpa da bebida).
Não sei como é a lei brasileira para estupro de menores mas, considerando o caso do pai da menina no Brasil que foi acusado de pedofilia, imagino que a lei seja severa. E mais: ainda há a discussão se foi crime ou não. No caso coreano, está mais do que provado e comprovado.
Lei coreana idiota. Só posso esperar que a menina se recupere da melhor forma que conseguir, e que algo revolucionário ainda aconteça nesse caso.
E, pra terminar: isso sim é motivo para uma vigília e passeata no centro da cidade. Não aquela estupidez sem fim do ano passado no caso da "vaca louca", incitada pela TV e depois desmascarada.
via koreabeat
E aos meus críticos: não estou aqui "generalizando e dizendo que os coreanos são ruins", "dizendo que a cultura não vale nada", etc. . Estou sendo muito preciso: estou falando da lei. Mais claro, impossível. Mas se alguém aí ainda conseguir achar que estou "atacando o país expondo só uma exceção", ou algo do gênero, parabéns. Joguem as pedras.
Semana que vem eu apareço com algo mais agradável, prometo.
This Traveler IQ was calculated on Tuesday, February 24, 2009 at 01:05PM GMT by comparing this person's geographical knowledge against the Web's Original Travel Blog's 3,717,512 travelers who've taken the challenge.