Plágio?! 'Magina...

Post 154

OBS.: para um melhor acompanhamento do post, sugiro clicar em todos os links em azul.

Quando o Coldplay lançou a música "Talk", foi um sucesso entre os fãs da banda. Porém, o pessoal um pouco mais velho, que acompanhou o início da cena eletrônica e seu desenvolvimento ao longo dos anos 80, percebeu, imediatamente, que ali estava mais um grande exemplo daquilo que é uma das coisas mais abomináveis no mundo da música: o plágio.

Pra quem não sabe, a melodia de "Talk" é, na verdade, a melodia da música "Computer Love", do álbum "Computer World", de 1981, do grupo alemão Kraftwerk, os avôs da música eletrônica como a conhecemos hoje. Não conhece o Kraftwerk? Se você é muito novo, provavelmente, não conhece mesmo. E não o culpo. Eles sempre foram avessos à publicidade. E foi ótimo que continuaram assim.

Mas, pelo fato de serem desconhecidos, não quer dizer que sua influência foi pequena. Ao contrário: assim como Elvis e Beatles estão para o Rock, Kraftwerk está para a música eletrônica, desde os primórdios do Technopop até as mais recentes e vanguardistas formas de música eletrônica.

O vídeo abaixo mostra as duas músicas. "Talk", de 2005, e "Computer Love", 24 anos antes:

É fato, porém, que Chris Martin, o vocalista do Coldplay, pediu desculpas e, posteriormente, permissão ao Kraftwerk por ter utilizado a melodia sem prévia autorização. Uma atitude decente. E foi reportado também que Ralf Hutter, co-fundador do KW, aceitou as desculpas e não criou grande caso, citando-se que ele foi "escrupulosamente educado ao se referir a Talk".

Pois não é de hoje que se reciclam trechos de músicas do Kraftwerk, especialmente samples. Um clássico é "Planet Rock", do Afrika Bambaataa, em 1982 (estouro do breakdance), quando foram utilizados trechos de "Transeurope Express", do álbum de mesmo nome do Kraftwerk, de 1977. Um sucesso na época.

Outro monumento do plágio: "Ice Ice Baby", do Vanilla Ice, de 1989 (para os novatos, Vanilla Ice foi uma tentativa de Eminem que não deu certo). Toda a base da música é plagiada de "Underpressure", de 1981, do Queen com David Bowie. Ouçam ambas. E Vanilla Ice ainda tentou explicar que as duas músicas eram diferentes, pois na sua havia UMA nota a mais...

Alguns vão dizer que MC Hammer, que estourou nos anos 90 com "U Can't Touch This" e suas calças com 80cm de cavalo, foi um plagiador. Em sua defesa, ele dá crédito a todos os samples que usou. Em "U Can't Touch This", o sample foi de "Super Freak", do figura Rick James; em "Pray", de "When doves cry", do Prince (nao tem no youtube).

Obs.: em relação às emblemáticas calças de MC Hammer, acho que elas estão voltando aqui na Coreia! Eu acho horrivel, pois não se sabe onde termina a bunda e onde começa o joelho. Mas vai saber se a moda é essa:

foto gmarket

Caso mais revoltante é o "Bonde do Tigrão" (recuso-me a linkar), de 2001. Toda a base da música foi em cima da poderosa "Headhunter", de 1988, dos belgas do Front 242, os principais expoentes da Electronic Body Music e do New Beat (aliás, atrevo-me a dizer que foi aí que a preparação começou a ser feita para a transição da dance music, saindo da musiquinha alegre de Rick Astley e outros, para músicas mais pesadas, em tons menores e com synths mais sujos nos filtros. Minha teoria: o Snap! juntou tudo que havia na época e criou a sensacional "Rhythm is a dancer", em 1992. A partir daí, todo mundo copiou). Em relação ao "Bonde", até onde acompanhei, eles foram processados.

Os otimistas de plantão dirão que não é plágio, que é "influência"...influência o escambau (pode dizer escambau? Ou é palavrão? Eu não sei... Com vergonha) !! Influência é ouvir Creed e Audioslave e associar com Pearl Jam.

Todo esse preâmbulo é pra dizer que o k-pop não foge à regra, e há vários casos de plágio. Os produtores usam tudo que encontram pela frente, sem medo.

Uma coisa é você imitar o estilo: isso é o mundo pop, que lança tendências para as massas consumirem (e pra gente esperta ganhar dinheiro). Outra coisa é copiar quase que na íntegra.

Como o mercado fonográfico coreano é bem bairrista, isto é, estimula-se muito o consumo de música feita aqui (a MTV e os canais de música praticamente tocam 90% de produto local), o acesso à música estrangeira é menor, e não tão estimulado. Apesar da fortíssima influência da cultura pop estadunidense na Coreia (veja os grupinhos de hip-hop, os b-boys, os rappers), ainda consome-se, predominantemente, k-pop e similares (também muito j-pop). Então, o público não tem base de comparação, e não percebe as cópias escancaradas que fazem seus artistas favoritos.

Um exemplo dessa alienação - não com plágio, mas com uma versão - é a música "Maria", dos jurássicos do Blondie. A música foi gravada em 1999, um enorme sucesso quando o Blondie tentou um retorno às paradas. Aí, em 2006, foi lançada a comédia coreana "200 pounds beauty" ou, numa tradução livre, algo como "Beleza de 100 quilos", baseada num mangá japonês, com a então queridinha coreana Kim Ah-joong, a Liv Tyler da Coreia (vejam a plástica na boca dela, se não é "influenciada" - ou plagiada? - pela filha de Steve Tyler). No filme, ela é uma cantora pop, e seu maior sucesso é a música..."Maria", numa versao coreana.

A trilha sonora vendeu que nem churro em porta de supermercado. Mas qual não foi a frustração dos coreanos ao descobrirem que a música já existia...

Isso é um exemplo que ilustra o fato de os coreanos não acompanharem a cena mundial (tem gente aqui que não sabe quem é Darth Vader), o que facilita a vida dos regurgitadores de grupinhos k-pop. Se copiar alguém de fora, ninguém vai perceber. Com algumas exceções...

Vejam um exemplo de cópia. O clipe abaixo é de uma mocinha chamada "Aiu". Vejam o clipe e ouçam o início da música:

Os primeiros segundos são um plágio de "Only in my dreams", de Debbie Gibson, de 1986. E o clipe, claro, é todo da Kylie Minogue, em "Come into my world".

E que tal a pessoa abaixo (melhor dizer "pessoa" quando não se sabe do que se trata), que atende sob a alcunha de "G-Dragon", um membro do grupitcho "Big Bang", que parece saído diretamente de "Final Fantasy", com suas músicas...ahn..."semelhantes" a outras já existentes?

Vejam o vídeo, e tirem suas conclusões. O cara copia tudo:

E tem mais por aí. Minha opinião é a seguinte: quer fazer música porcaria, pode fazer. Mas não copie. Seja original, no mínimo, naquilo que é ruim. Pelo menos isso. Seja como Kanye West. Se pra ser ruim tem que copiar, é porque é então MUITO ruim.

Chega de falar mal dos plagiadores do mundo (estou muito Diogo Mainardi hoje - acho que é porque estou lendo um livro dele Diabólico ). Se ninguém descobrirem seus esquemas, sorte deles. Se pegarem, que sejam processados e tenham que pagar muito dinheiro.

Filhota, parabéns pelos seus 10 meses de vida!

Annyonheghaseyo!



Escrito por Maschetto às 21h18
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Pansori

Post 153

Uma das coisas que mais me atrai em qualquer país é sua música típica. É sempre interessante conhecer as bases da música de uma cultura, os instrumentos utilizados, a forma como se canta. É quando você começa a conectar os pontos e descobrir semelhanças entre diversos países, entendendo como as migrações influenciaram os estilos, como os instrumentos mudaram e se adaptaram a diferentes formas de tocar, etc.

Um exemplo é o instrumento coreano Gayageum (do qual eu já falei aqui, e onde há vídeos amadorzézimos Língua de fora desse que vos escreve aqui e aqui):

Muito similar a ele é o Koto japonês:

Ambos têm uma origem parecida, pois derivaram do instrumento chinês Guzheng:

Ora, considerando-se que a China foi a principal influência do Leste Asiático, não fica difícil crer que os três instrumentos estão relacionados entre si. Com isso também deduz-se muito a respeito da transferência de cultura entre os povos.

Mas o interessante é notar que, apesar da semelhança entre os instrumentos, as músicas são bem diferentes quando comparadas. Abaixo, o Gayageum:


Em seguida, o Koto japonês: 


E comparem com a melodia chinesa ao Guzheng:

Três instrumentos muito similares, três tipos de música muito diferentes, sob todos os aspectos: harmonia, melodia, ritmo, tudo.

Na Coréia, em termos de música típica, a coisa não é diferente do resto do mundo. A música clássica ou folclórica coreana é tão rica quanto a brasileira ou qualquer outra. O difícil é conseguir ir atrás, no meio dessa avalanche de grupinhos irritantes de K-Pop que tomam todo o espaço.

Quando fizemos nossos cursos de música tradicional coreana (mais vídeos aqui e aqui), pudemos ter mais contato com a música típica do país. Minha professora de Gayageum era, obviamente, uma acadêmica, e foi com ela que tomei contato inicial com o Pansori.

Literalmente, Pansori significa "sons onde as pessoas se reúnem", e é um estilo musical facilmente identificável. Geralmente, há apenas duas pessoas: um(a) cantor(a) e um percussionista. O canto é relativamente dramático, com muitos melismas e glissandos. À primeira vista parecem músicas tristes, chorosas, mas às vezes falam de alegrias, vitórias:

O canto é quase que uma declamação. É preciso muita disposição para a coisa. Importante também são os pequenos gritos de encorajamento dados pelo percussionista, que fazem com que o cantor siga em frente (semelhante aos "olés" na música flamenca, nas sevilhanas).

E quanto mais idoso(a) o cantor, mais interessante ainda fica o Pansori:

O leque tem dois objetivos principais: enfatizar os movimentos do cantor e também indicar mudanças de cena. E, esteticamente, é interessante mesmo.

E quando a cantora ainda faz alguns atos cômicos, fica mais agradável de ver e ouvir a performance:

Assim como a música clássica ocidental, leva-se um tempo até assimilar o Pansori. Não é na primeira audição que ele te pega. E "ver" é sempre melhor que só ouvir, pois toda a movimentação e a energia dos intérpretes deve ser também experimentada.

Agora, o que acontece quando você mistura Heavy Metal com Pansori??? Resposta: você tem uma das coisas mais legais que eu já ouvi na Coreia: Gostwind, uma banda de Korean Folk Metal! Como diríamos em inglês, eles são "badass"! Ouçam:

É por isso que eu sempre falo que a cena underground coreana é infinitamente superior ao mainstream. Mas o que vende é menininhas com plástica rebolando e moleques com cara de anime japonês dançando, então...

E falando em coisas típicas de países, domingo passado a Selma fez uma feijoada campeã, e convidamos alguns colegas brasileiros que também estão perdidos aqui por esses lados da Coreia pra almoçarem com a gente: Rebeca, Henrique, Gustavo, Briza, Ágatha, Juliano, Eun Bee (coreana, mas com português de sotaque paulista). Foi um domingo longo, o almoço emendou com a janta, bem no esquema família-Brasil mesmo. E a Beatriz ficou maluca com todo o assédio, claro.

(O pessoal tirou fotos, mas nenhum desgramado fez a gentileza de enviá-las ainda. Tem jeito, mineirada??)

Obrigado a todos pela visita aqui em casa!

Annyonheghaseyo!



Escrito por Maschetto às 17h22
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Nazistas na Coreia?

Post 152

Para os desavisados, provavelmente a primeira reação à imagem abaixo seria de revolta:


Nazistas na Coreia? E assim, publicamente expostos?

Primeiramente, um olhar com mais calma revelará que a Suástica da janela não é a mesma adotada pelos nazistas: a da janela, além de não ser inclinada, tem seu braço superior apontando para a esquerda (ao contrário da suástica nazista que aponta para a direita).

Em segundo lugar, assim que você chega à Ásia, uma das primeiras coisas que você aprende é que esse símbolo é usado amplamente pelos budistas. Principalmente nos templos mais escondidos, esse sinal é utilizado para identificá-los. E também nos não tão escondidos assim:


A Suástica é um símbolo utilizado há séculos, principalmente como símbolo de sorte, em amuletos e talismãs. Há indícios de uso no hinduísmo, além do budismo, e também em diversas civilizações e culturas, como a Celta, Persa, Grega e muitas outras mais. Hitler simplesmente se apropriou da figura e fez com que a mesma se tornasse um sinônimo de ódio e racismo.

A propósito, o Nazismo e seus símbolos são extremamente execrados no Ocidente mas, no Oriente - especialmente, na Ásia - a coisa não é tão forte assim. O significado do Holocausto, o massacre, o racismo dos nazistas, e tudo mais que foi propagado por Hitler e suas tropas é muito presente na memória européia e americana ("americana" = todas as Américas), mas não tem o mesmo apelo aqui por esses lados, especialmente na Coreia.

Prova disso são as diversas propagandas com temática nazista, incluindo comerciais de TV, bares, etc. . Os coreanos não fazem nada disso por mal, nem com intenção de chocar ninguém: a questão é que a informação sobre o nazismo por aqui não é tão significativa como no outro lado do mundo, então, não há essa indignação costumeira mediante qualquer coisa que lembre remotamente essa fase negra da humanidade.

Exemplos abaixo, bares aqui na Coreia, famosos pelo nome:


Foto de geostorm.org



Foto de "Key West and Other Fantasies"

Garoto coreano fazendo cosplay:


E um comercial de cosméticos que causou furor na mídia internacional, com repercussão na CNN, Alemanha, Bélgica e muitos outros países. O comercial foi editado, os símbolos e o nome de Hitler, removidos. Um pouco do caso pode ser lido aqui:

Depois desse comercial, devido à repercussão que teve, os coreanos começaram a tomar um pouco mais de cuidado com a temática nazista. Claro, os bares devem estar por aí ainda, mas imagino que na TV os comerciais não terão mais vez.

Semana passada, Efeito Ambulância? Não, "Efeito Beatriz" mesmo. Se eu cobrasse cada foto que pedem pra tirar...:


E a nossa Beatriz completou 9 meses nessa semana que passou. Está crescendo, comendo muito bem, e começando a dormir mais, para alegria dos pais. Saibam mais no Sentada na Pia.

Parabéns pelo "mêsversário", filhota!


E no Konglish da semana, uma frase que não conseguimos desvendar o significado (estava escrita no espelho do banheiro feminino de um restaurante aqui):

"Even if loved horse can stop, love cannot stop"

(algo como "Mesmo que cavalo amado possa parar, o amor não pode parar"...hein?) Em dúvida 

Se algum dos descendentes de coreanos que acessam o blog conhecerem o provável ditado original, por favor, escrevam nos comentários. Estamos curiosos!

Annyonheghaseyo!



Escrito por Renato Maschetto às 17h50
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